Londra Calling

Com exclusividade para GULA, o fã do The Clash Rogério Fasano revela o lado punk que poucos conhecem – e isso inclui uma visão nada convencional de gastronomia

A situação em Londres no final dos anos 70, começo dos 80, não era brincadeira… Os skinheads perseguiam os estrangeiros nas ruas. Eles te paravam e perguntavam qualquer coisa, só para prestarem atenção no seu sotaque. Se tivesse sotaque de estrangeiro, você apanhava. Aconteceu comigo e com um amigo chileno. O careca nos perguntou ‘Que horas são?’ e eu respondi… meu amigo só olhou para mim e berrou: ‘Run!’ E os skins vieram correndo atrás de nós. Nunca corri tão rápido. Escapamos por pouco. Morei em Brixton, um bairro com muitos imigrantes negros, onde via-se muita confusão na rua, violência… Tudo o que está descrito nas letras do Clash daquela época.”

O cinquentão que narra essa aventura de juventude não tem a menor pinta de punk. Distinto, traja um terno azul de feitio bem tradicional. Um detalhe na lapela o trai: um button da banda inglesa The Clash, uma das mais importantes a sair do movimento punk. Sim: Rogério Fasano, restaurateur, hoteleiro, homem do mundo, esconde uma alma roqueira sob o terno italiano. “Esconder”, na verdade, nem seria o verbo exato – já que nem é preciso insistir muito para que Fasano discorra, animadamente, sobre sua ligação com o mundo do rock. O ambiente escolhido para sua conversa com GULA sobre o assunto não poderia ser mais apropriado: o Baretto-Londra, o charmoso bar anexo ao Hotel Fasano Rio. Nas paredes, dezenas de capas de discos de vinil, pinçados da coleção particular de Rogério, servem de decoração e símbolo de atitude. A seleção dos LPs, alguns dos melhores álbuns de rock produzidos entre as décadas de 1960 e 1980, revela o gosto do dono: classic rock, progressivo, new wave, punk e pós-punk.

“Eu sempre gostei de rock, começando com os discos feitos a partir do fim dos anos 60, início dos 70… Comecei com Rolling Stones, Lou Reed, David Bowie…”, diz Fasano, que a todo momento interrompe a conversa para sacar a capa de um disco, relembrar os versos de uma música ou procurar uma canção em MP3 no celular. “O que me pegava eram as letras. Eu decorava tudo, queria entender”, conta, e emenda cantando “Bankrobber”, clássico do Clash: “My daddy was a bankrobber / But he never hurt nobody / He just loved to live that way / And he loved to steal your money…” A paixão pelo grupo inglês, ainda hoje sua banda favorita, vem da fase em que morou em Londres por três anos, no fim da adolescência. “Morar no exterior quando se têm 16, 17 anos é uma experiência muito enriquecedora. Eu fui para a Inglaterra estudar cinema e cheguei a ver três shows do Clash, ainda em casas pequenas, antes de eles estourarem de verdade.”

Entretanto, mesmo quando jovem, Fasano evitava cerrar fileiras com os punks. “Nunca gostei da atitude, do comportamento punk, agressivo demais, a coisa de cuspir nos outros… Na verdade, eu sempre fui contra essa coisa de turma, de gueto, de movimento.” É a oportunidade de fazer a conexão entre a música e a gastronomia. Assim como no rock, quando assunto é cozinha, o restaurateur sempre resistiu a embarcar nos “movimentos” periódicos que tomam de assalto a cultura da boa mesa. “Em gastronomia isso acontece muito – e eu me recuso a tomar parte. Agora a moda é dizer que ‘o terroir brasileiro é a Amazônia’. Ora, eu faço culinária italiana, como vou usar o terroir brasileiro? E tem outra coisa: a Amazônia fica a cinco horas de vôo do Rio. Algumas horas a mais e você chega à Itália…”

Há alguns anos, em outra entrevista, o dirigente do Grupo Fasano (quatro hotéis, 16 restaurantes) lançou mão de uma metáfora musical para explicar como entendia a contraposição entre a tradição e a modernidade na culinária. A gastronomia clássica seria como as grandes bandas do passado, já consagradas e referenciais. E as novidades contemporâneas poderiam ser comparadas ao Radiohead (a banda que Fasano considera a mais inovadora da atualidade): uma releitura atualizada de influências clássicas. “As pessoas confundem o clássico com o careta. Lou Reed hoje é um clássico, mas de careta ele não tem nada”, proclama. “Sempre pode-se fazer as coisas de maneira mais atual, contemporânea, leve. Mas sem a necessidade de cair em modismos. E isso vale para a cozinha, para a música, para a vida”.

Fasano segue: “A comida, para mim, é algo que sempre remete a lembranças da infância. Sobretudo quando se vem de uma cultura que valoriza muito a culinária, como é o meu caso com a Itália. O italiano, quando vai comer, não está atrás de algo superelaborado. Ele quer um prato simples, mas bemfeito, que desperte nele algum sentimento. É incrível como um prato prosaico, que você já comeu muitas vezes, ainda é capaz de te surpreender”. Esse tipo de pensamento é que influencia algumas das opiniões – por vezes polêmicas – do empresário. Exemplo? “Eu implico com menu degustação. Menu surpresa, então…”, afirma. “Eu quero saber o que vou comer. Pode ser até algo que nunca comi antes, mas eu quero estar preparado. Esses cardápios de 15 pratos, longuíssimos… esses restaurantes em que as pessoas vão não para comer, mas sim só para aplaudir o chef, sabe como é?”

Para Fasano, aplauso é só para a hora do show. Show de rock, de preferência.