O Provador

JEFF ARNETT É HOMEM QUE DEGUSTA E DETERMINA A QUALIDADE O UÍSQUE MAIS POPULAR DO MUNDO

Não, ele não gosta de ser chamado de master blender. “Isso é só na Escócia. Lá, eles fazem blends de seus uísques. Eu sou master distiller. Não misturo nada. Meu papel é apenas conferir e manter uma qualidade e uma regularidade que já estão aí por séculos”, explica. Esse é o ponto: em time que está ganhando, só se mexe com a certeza de melhorar. E foi justamente isso o que trouxe o americano Jeff Arnett recentemente ao Brasil, para lançar o Jack Daniel’s Sinatra Select, versão super premium do que já era emblemático. Nada que o mítico e midiático Old No. 7 – uma das garrafas mais conhecidas do planeta, a ponto de virar signo pop – não atendesse por si só. Afinal, trata-se do bourbon elevado a estado de arte (“um Jack é sempre um Jack”, defendem admiradores). Mas o que se depreende das palavras de Arnett é que apesar de trabalhar muito bem o mito, a grife Jack Daniel’s não dorme em louros. Ao contrário: paralelamente à sua linha mais conhecida (que inclui o No. 7, o Tenessee Honey, com pitadas de mel na fórmula, o Gentleman Jack e o Jack Daniel’s Single Barrel), orbita uma gama de dezenas de séries especiais, limitadas ou não. E a preocupação de adequar-se às tendências coqueteleiras. “A maioria das pessoas só lembra de Jack & Coke, mas Jack Daniel’s vai bem com muitos outros estilos de drinques”. De quebra, sugere: “Mesmo puro, vai muito bem com o famoso churrasco brasileiro”.

 

O que exatamente faz o Jack Daniel’s ser tão especial e um ícone mundial?
Estamos na praça por quase 150 anos e estou cada vez mais convencido de que nosso fundador, o senhor Jack Daniel, queria fazer um grande uísque, cujo sabor se diferenciasse de todos os outros. E tomou algumas decisões que o tempo mostrou serem fundamentais. Por exemplo, uma delas, a questão da água, ao encontrar e escolher a água perfeita, bem no lugar onde morava. Outra foi o emprego dos grãos e cereais que usamos. Há ainda o fato de o Jack Daniel’s ser mais doce e defumado. Isso se dá porque, além de fazer os próprios barris, nós os tostamos por dentro, antes de inserir o uísque. É como se caramelizássemos açúcar dentro deles. Somos a única destilaria no mundo a fazer isso, o que dá à bebida um de seus sabores assinatura, que é o leve adocicado de baunilha.

Apesar do alto teor alcoólico, o fato do Jack ser fácil de beber é outro segredo do sucesso?
Bem, para meu gosto pessoal, uísque bom nunca te dá um coice. Já provei Jack Daniel’s com 140º de graduação alcoólica, direto do barril. Ele te aquece inteiro, mas não dá trancos. Se você o maturar apropriadamente, isso nunca acontecerá, como acontece com outros produtos de mesma graduação alcoólica que o Jack Daniel’s. Como disse, é um processo que começa no uso de barris novos tostados. Dessa forma, o uísque fica macio, redondo, com muita personalidade, quando você engole.

Brasileiros gostam de uísque com muito gelo no copo. Você recomenda Jack Daniel’s assim?
Ouvi falar disso e não recomendo para todos os uísques. As pessoas me perguntam o tempo todo como prefiro meu Jack Daniel’s. Tomo do jeito típico, on the rocks. Mas com pedras de gelo de qualidade. Jack Daniel’s pode ser tomado assim, mas sem exagerar no gelo. Quando estou relaxado, bebo assim. Mas quando estou visitando outros países, peço ao barman o melhor coquetel com Jack Daniel’s da casa.

Como master distiller, você também dá aval para a linha de produtos gourmet com a marca Jack Daniel’s?
Temos uma licença que nos permite lançar uma série de produtos, mas não me envolvo com eles. De molho barbecue a mostardas e geleias. Como ingrediente, o Jack Daniel’s cozinha muito bem. Uma das razões de termos um livro de receitas da marca é porque em qualquer receita que requeira baunilha ou similares, você pode usar Jack Daniel’s no lugar. E todos esses produtos funcionam bem harmonizando com o uísque, em diferentes partes da refeição.

Nesse sentido, qual a harmonização perfeita com comida?
Não acredito que existam uísques perfeitos para todas as comidas. Mas peixes e pratos com galinha combinam muito bem com o Jack Daniel’s Old No. 7. Ele também vai bem com charutos. No Brasil, acho que nossa edição Single Barrel daria uma harmonização fantástica com churraasco. Trata-se de um uísque mais aromático, com muito mais complexidade a ser explorada lado a lado com a carne assada. Formariam o par perfeito.

Sendo tão tradicional, Jack Daniel’s se encaixa como ingrediente em uma mixologia mais moderna praticada hoje em dia?
Com certeza sim. A maioria das pessoas quando pensa em coquetel com ele, pensa em Jack & Coke, um drinque muito popular não apenas nos EUA, mas no mundo todo. Mas uma das razões pela qual fazemos diferentes tipos de uísque é porque a coquetelaria pede isso. O mundo da coquetelaria é vital para nós. Por exemplo, temos em linha o Gentleman Jack, um uísque mais leve, que vai bem como base ou como ingrediente. Não como vodca, que não tem gosto de nada, mas com personalidade e sabor. Ele não rouba as atenções e permite que outros ingredientes também se destaquem no drinque. Já qualquer coquetel que seja sour, o que está na moda hoje, tem a ver com o No. 7. Ele tem a suavidade doce de baunilha no começo e a madeira no retrogosto, então esse espaço no meio fica perfeito para sabores mais azedos no palato. Mas todos os coquetéis com Jack Daniel’s devem ter uma coisa em comum: deixar o uísque ser o “guia” da bebida. Ele fará isso sem roubar a cena.

E o Jack & Coke, por que é tão popular?
Para ser sincero, não sei ao certo. É um mistério que vem desde o surgimento do drinque. Acho que o casamento se dá pela baunilha presente no sabor da Coca-Cola. Veja, sou um fã de várias Colas. E já tentei fazer o drinque com delas, com Pepsi, inclusive, mas não adianta, não dá certo, não fica igual. E o inverso também é verdade: tente pegar Coca-Cola e combinar com outro Bourbon, não vai ficar bom. O drinque só fica bom com os dois juntos. Foram feitos um para o outro.

Quando a marca Jack Daniel’s relança outros uísques de sua linha, como frequentemente acontece, o que muda? A garrafa ou o produto?
Os produtos não mudam. As receitas não mudam. Só as garrafas. Já com a edição Sinatra, recém lançada, foi diferente. Trata-se de um novo produto. Não é um black label chegando na praça em garrafa diferente. Como nós mesmos fazemos os barris, podemos experimentar e ousar como quisermos. O Sinatra foi feito em barris com diversas camadas extra de carvalho tostado, por isso é mais doce e encorpado. Foi a primeira vez que fizemos um uísque assim, é uma edição limitada, que estará em linha ao menos por alguns anos.

Acha que Jack Daniel’s ainda incorpora a aura de bravura vista em livros e filmes?
A imagem rebelde? Muito dessa imagem se foi. Ficou a de independência, afinal não seguimos com o fluxo. E a de masculinidade, embora 30% de nossos consumidores sejam mulheres.

Grandes master blenders escoceses têm rituais estranhos para beber e seus narizes estão no seguro. O seu também está?
(Risos) Não. Acho que qualquer um que tenha convicção, pode ser um master distiller. O ponto é: compreenda seu palato. Quando isso acontece, as coisas ficam mais fáceis. Não é preciso por o nariz no seguro.