O vinho do deserto

Degustamos o Sauvignon Blanc que expande as fronteiras vinícolas do Chile
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O Sumpai foi a inquestionável estrela da degustação

O pronunciado nariz mineral sobre as frutas frescas, e uma intrigante salinidade na boca anunciaram na taça a nova paisagem líquida do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Sempre citada como barreira natural ao norte do Chile, que protege os vinhedos de pragas e doenças, a região começa a mostrar insuspeitada vocação, pintando como a mais nova e extrema área vinícola do país.

O Kalfu Sumpai Sauvignon Blanc 2013, referido vinho branco de berço árido e caráter distinto, foi a estrela do almoço em que o enólogo Alejandro Galaz apresentou à GULA os rótulos da série Kalfu, com a presença de Marcelo Alcure, da importadora Domno. São vinhos de cepas cultivadas nas proximidades do Oceano Pacífico, porém, em diferentes territórios do Chile, subindo pelo mapa até Huasco, a fronteira desbravada no Atacama.

“Foram seis anos de muito trabalho até a primeira safra, e o resultado é um sauvignon blanc surpreendente, que reflete diretamente na taça seu território. Um vinho potente e mineral, com uma salinidade única”, disse Galaz, ilustrando o que a boca descobria a cada gole refrescante. “Ele pede os frutos do mar. Imagine-o acompanhando ostras”, sugeriu o enólogo, sobre um casamento realmente promissor.

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A paisagem do Atacama é considerada uma das mais belas do mundo

A pequena produção, de apenas 9 mil garrafas, começa em vinhedos localizados a 22km do litoral, e 350km ao norte de Santiago. São dias muito quentes, amenizados pela brisa marinha, noites frias e manhãs de névoa. O solo calcário e seco exige trabalhosa irrigação, através de canais que transportam a águas do Rio Huasco.

Em comparação aos grandes chilenos, o Sumpai Sauvignon é um vinho feito com pouca intervenção, leveduras nativas e sem fermentação malolática ‘forçada’. A ideia parece mesmo que é deixar, na medida do possível, a natureza falar. O resultado é um branco de 13% de teor alcoólico, muito fresco e vivo, com as esperadas frutas tropicais presentes, lembranças de pimentões verdes e os aromas minerais expressivos. Faturou 94 pontos no Guia Descorchados e chega ao mercado brasileiro a R$ 147,90.

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O enólogo Alejandro Galaz é o pai do projeto das uvas que crescem próximas ao Pacífico

Azul da Cor do Mar

Na série Kalfu, que significa ‘Azul’, Sumpai é a sereia, entre os seres híbridos da mitologia Mapuche. É ela que abençoa também o Kalfu Sumpai Syrah 2013, outro vinho que impressionou. É um syrah de clima frio, plantado no Vale de Leyda, que passa 10 meses em barricas francesas de terceiro e quarto usos, e chega na taça com fortes traços balsâmicos. Como se tivesse recebido sobre as frutas negras de seu paladar uma infusão de ervas como tomilho e lavanda. Chega aos mesmos R$ 147,90.

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Syrah sobre arroz de pato com Parma: notas balsâmicas e frutas escuras

O almoço trouxe também o Kalfu Kuda Pinot Noir 2013, de Leyda (R$ 101,90), de acidez marcante; e o Kalfu Molu Sauvignon Blanc 2013, do Vale de Casablanca, em ótimo custo-benefício de R$ 60,90. O Kalfu Kuda Chardonnay 2013 (R$ 101), também de Leyda, agradou especialmente pelo frescor e a acidez, untuoso e persistente sem passagem por barricas. Um buquê de frutas tropicais como manga e papaia, como apontou o enólogo. Ainda na língua mapuche, Molu é a estrela do mar, e Kuda é o cavalo marinho. Vale o mergulho.